sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Notícias do Front

Após longuíssimo período de crise, quase sempre adotando práticas comuns aos que vêem na evasão de si próprio um alívio para o grande vazio que é a (não) existência, é que digo – parodiando uma das cenas finais do filme Laranja Mecânica (Kubrick) – “I’ am finally cured”.

Curada, gente, e de tal maneira que minha vida, assim como a História que tem sua linha cortada em antes de depois do nascimento de Cristo (a.C e d. C), passou a ser dividida em antes e depois das férias do trabalho, em 2007. (a.F e d. F).

Agora vejo com clareza: todas as idéias, todas as verdades que sempre existiram na Monicalândia ficaram lá, ou melhor, aqui, em formato embrionário durante todo esse tempo, sufocadas pelo senso comum, rechaçadas pela opinião alheia, dando espaço a uma conduta displicente, ao conformismo, enfim, à vida no piloto-automático; como bem observado por Spinoza, passei todo esses anos “fugindo do que os homens em geral fogem e buscando o que vulgarmente procuram”.

Quanto tempo perdi vendo tv? Quantas horas do meu precioso tempo de vida desperdicei com o mundo imaginário do orkut? Com filmes? Com os romances que costumava ler? Quantas vezes deixei meus pensamentos se ocuparem com a vida de outras pessoas ou com as “pataquadas” do trabalho? Quanto dinheiro gastei com os fins de semana e com a procura de um mundo que só existiu na minha imaginação? Pois, é...
Me espantei ao perceber que grande parte das ações que norteiam a sociedade fazem parte de um esforço contínuo, ou melhor dizendo, um esforço frenético, desesperado de manter-se "ocupado" e fugir de um tédio que inexiste quando se tem uma vida - e isso só me foi possível enxergar quando, deliberadamente, me afastei de qualquer distração, tendo que encarar a vacuidade de espírito com a qual me permiti andar durante todo esse tempo, não tendo outra opção que não fosse a de procurar entender os motivos que estavam me levando a “viver” de forma tão infeliz.
A conclusão foi a de que, na verdade, eu não vivia: buscava recompensas, prazer nas honrarias das relações sociais, me jogando, sem pensar, nesse mundo de abobrinhas generalizadas e cada vez mais pobre de idéias, direcionando toda minha capacidade intelectual em tarefas fúteis que tentarei explicar em outra ocasião.

Em meio a tudo isso, enfim, nesses meses de reflexão, encontrei uma brecha pra respirar e ganhei uma vida! Vejam bem: uma vida, coisa que, até então eu não tinha; e um espírito verdadeiramente cognitivo, diariamente alimentado pela observação do comportamento alheio, da natureza, dessa fauna humana. Afinal, não é preciso mais que um ou dois neurônios para perceber que não nos resta muito a fazer neste planeta que não seja contemplar o que há ao nosso redor e decifrar o funcionamento deste mundo velho.
As angústias sobre a alma, sobre a humanidade, sobre Deus, aquelas que, até ontem, tinham para mim um valor de "problema-infindável-que carregarei-pro-resto-da-vida" agora não me parecem tão grandes assim. Continuam existindo, mas não importam tanto assim. E ainda digo mais: se não perderam totalmente o seu valor ao menos tiveram-no consideravelmente reduzido.

Nada mais importa. Nada. Nada é problema quando você passa a viver como um ser mortal e um reflexo disso é a minha ausência não só deste blog, mas do convívio até mesmo com os que vejo diariamente (!); só agora percebo que quanto mais tempo tenho pra mim e para minhas idéias, menos importância dou para as falácias que giram ao redor e que nos levam a fazer coisas que não queremos, nos transformam em seres vazios e cada vez mais distantes do que somos na essência.

E falando em falácias... Agora me lembro do motivo de ter vindo pra cá (hehe): vim escrever sobre a problemática do não-viver, de como o homem se torna alheio a sua própria vida, de como suas ações são impulsionadas tão-somente pela opinião do outro; do ser semi-vivo e nada racional.

Será então assunto para um próximo post. Por ora, deixo-lhes apenas esta preciosa frase: “Tudo passa, até a uva passa”.

Pensem nisso.

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