Ah, fim de mais um ano, começo de outro. Fiz em 2007 o que achei que tinha que fazer. Devo ter, sem exageros, passado a maior parte do tempo - em que estive acordada - estudando, estudando e estudando. Mesmo que o resultado da prova seja uma temida reprovação não vejo algo de tão ruim nisso: fiz o que deu pra fazer no pouco tempo que tive para estudar e, acreditem, não é fácil voltar a estudar a vida dos Platelmintos, por exemplo, depois de sete anos sem saber o que é matéria de terceiro colegial. Apesar de querer muito, muitíssimo, entrar para o curso de Filosofia já em 2008, meu ingresso só virou uma questão de tempo.
O que as pessoas não entendem é por que Filosofia. Como assim fazer uma faculdade só pra pensar? Coisa inútil, como é que se ganha dinheiro com isso? Bom, pensar na utilidade da Filosofia com a cabeça imersa nesta praticidade na qual o fim último é "ganhar dinheiro" é coisa difícil de se fazer mesmo. Não recrimino quem pense dessa maneira: a sociedade nos ensina a querer comprar um monte de baboseiras sem utilidade, ser rica, bonita, agradar os pais, enfim, a se preocupar demais com o status. "Ser feliz", proclamam os mais desavisados. Uns compram essa idéia de comercial do banco Itaú sem grandes problemas, outros, como eu, acham essa "felicidade" simplesmente mentirosa. (Não se aflinja, leitor, se você está bem achando que ser rico é a única coisa a se fazer enquanto ser vivo melhor pra você. De verdade.).
É até engraçado. Vejo nos olhos dos meus interlocutores 4 tipos de opiniões possíveis pra resposta da pergunta "O que você vai prestar?". São as seguintes:
1) "Ela vai fazer filosofia porque virou alguma descrente niilista e
mal humorada";
2) "Virou mod-hippie, panteísta, i'm-the-walrus-psicodélica";
3) "Ih, vai virar freira";
4) "Vai fazer filosofia para parecer inteligente, culta, filósofa,
arrogante".
Tsc, tsc.
Confesso que o meu medo é encontrar pessoas neste curso que satisfaça alguma das categorias aí acima. Não consigo suportar a idéia de ter que dividir a classe com alguém que apresente qualquer uma dessas características e explico o porquê: o interesse dessas pessoas pela Filosofia simplesmente não é o interesse certo!
Uma colega de serviço me disse que o amigo do marido fazia Filosofia e completou, "Ele é pastor...". Ó, senhor Jesus! Fiquei aflita a partir daí. Fico pensando: como discutir Nietzsche com um crente, por exemplo. Nada contra a crença em si, mas fico imaginando o quão fechado para idéias extra- religião esse pessoal deve ser. Entrar num curso de Filosofia achando que somente as obras cristãs como as de Santo Agostinho e Tomás de Aquino são válidas é complicado.
E as pessoas que vão fazer Filosofia para "psicodelizar" nas festinhas da USP? Também vai ser difícil de aguentar, mas com esses não me preocupo tanto: diante da dificuldade da prova acredito que os maconheiros acabem sendo barrados já na 1ª fase. Pode ser que entre um ou outro, mas acredito que será um número bem inexpressivo. Bom, longe de mim ser moralista com relação às drogas, aliás, quem me conhece sabe que eu não sou, mas... drogas e pensamento crítico não combinam.
Os que procuram a Filosofia pra manter a pose de malvado e ateu também me incomoda. Ateu. Ateu. Ateu. A própria palavra já remete pra um estereótipo infantil (beirando ao ridículo) de pessoa inteligente, má e desnorteada. Reforçar essa imagem entrando num curso de Filosofia só agrava a situação. Não vou entrar na questão do ateísmo aqui no blog mas é costume associar a fé em deus, duendes ou seja lá o que for com BONDADE, enquanto a descrença no místico é associada à MALDADE. Qualquer pessoa com um pouco de parcimônia, sabe que isso não é verdade. Ao contrário do que supõe o senso comum, não é preciso ter fé para ser virtuoso, bom e amar a vida. É o que eu vi com maior clareza lendo Russel. Não que eu seja atéia, não sou nada, não sei de nada, não tenho nada e nunca serei nada, mas uma coisa eu sei: identificar esse estilo de ateu supracitado. Sem comentários.
And last, but not least: há os que farão Filosofia e escreverão livros entitulados "Como um diploma de Filósofo vai revolucionar a sua vida!" "Seja filósofo, pareça esperto". Olha, só de pensar nisso já tenho calafrios. Talvez seja só uma falsa impressão mas vejo um "quê" de prepotência nesse título de "Filósofo". Ser professora de Filosofia, mestra, doutora - e até onde se permite ir com essas pataquada rotulesca - é uma coisa, mas Filósofa? Peralá, aí já é pegar pesado! Como posso ousar em me colocar no mesmo patamar que Sócrates, Shoupenhaer, Kant, oras, convenhamos: é muita prepotência, não acha?
Bom, escrevi os motivos pelos quais eu não faria o curso de Filosofia para, finalmente, explicar por que eu o faria. Como escrevi lá no início, o pouco de preocupação que eu tinha com a imagem que as pessoas faziam de mim escorreu pelo ralo. Não que eu tivesse muita, mas, vocês sabem, todos nós nos preocupamos com isso, em maior ou menor grau. Viver sozinha e ficar todo esse tempo sem sair foi o que faltava para começar a pensar na vida e, consequentemente, na morte. Aliás, é essa fuga, esse medo de encarar a própria morte que me deixa curiosa e espantada: como o ser humano pode - com o cérebro que tem - passar toda a vida acreditando ser eterno, imaginando santos, Harry Potter, fadas e duendes, se preocupando com roupas e outras coisas fúteis, vivendo uma ilusão imposta já de cedo pela família, sofrendo com bobagens e se entendiando por aí, como?
Com esse pensamento é que me interessei pela Filosofia, não vejo forma melhor de utilizar esse "sopro" de vida que ainda tenho com o conhecimento. Ensinar, ouvir, aprender e ter tempo para a música, os amigos, dormir, ler, escrever e anarquizar o sistema, por exemplo é só o que consigo me ver fazendo daqui pra frente. Deixei de 'ramelar' com essa vida tão misteriosa, tão curta e tão sem sentido.
P.S. Estou sendo irônica com o "anarquizar o sistema", tá?
O que as pessoas não entendem é por que Filosofia. Como assim fazer uma faculdade só pra pensar? Coisa inútil, como é que se ganha dinheiro com isso? Bom, pensar na utilidade da Filosofia com a cabeça imersa nesta praticidade na qual o fim último é "ganhar dinheiro" é coisa difícil de se fazer mesmo. Não recrimino quem pense dessa maneira: a sociedade nos ensina a querer comprar um monte de baboseiras sem utilidade, ser rica, bonita, agradar os pais, enfim, a se preocupar demais com o status. "Ser feliz", proclamam os mais desavisados. Uns compram essa idéia de comercial do banco Itaú sem grandes problemas, outros, como eu, acham essa "felicidade" simplesmente mentirosa. (Não se aflinja, leitor, se você está bem achando que ser rico é a única coisa a se fazer enquanto ser vivo melhor pra você. De verdade.).
É até engraçado. Vejo nos olhos dos meus interlocutores 4 tipos de opiniões possíveis pra resposta da pergunta "O que você vai prestar?". São as seguintes:
1) "Ela vai fazer filosofia porque virou alguma descrente niilista e
mal humorada";
2) "Virou mod-hippie, panteísta, i'm-the-walrus-psicodélica";
3) "Ih, vai virar freira";
4) "Vai fazer filosofia para parecer inteligente, culta, filósofa,
arrogante".
Tsc, tsc.
Confesso que o meu medo é encontrar pessoas neste curso que satisfaça alguma das categorias aí acima. Não consigo suportar a idéia de ter que dividir a classe com alguém que apresente qualquer uma dessas características e explico o porquê: o interesse dessas pessoas pela Filosofia simplesmente não é o interesse certo!
Uma colega de serviço me disse que o amigo do marido fazia Filosofia e completou, "Ele é pastor...". Ó, senhor Jesus! Fiquei aflita a partir daí. Fico pensando: como discutir Nietzsche com um crente, por exemplo. Nada contra a crença em si, mas fico imaginando o quão fechado para idéias extra- religião esse pessoal deve ser. Entrar num curso de Filosofia achando que somente as obras cristãs como as de Santo Agostinho e Tomás de Aquino são válidas é complicado.
E as pessoas que vão fazer Filosofia para "psicodelizar" nas festinhas da USP? Também vai ser difícil de aguentar, mas com esses não me preocupo tanto: diante da dificuldade da prova acredito que os maconheiros acabem sendo barrados já na 1ª fase. Pode ser que entre um ou outro, mas acredito que será um número bem inexpressivo. Bom, longe de mim ser moralista com relação às drogas, aliás, quem me conhece sabe que eu não sou, mas... drogas e pensamento crítico não combinam.
Os que procuram a Filosofia pra manter a pose de malvado e ateu também me incomoda. Ateu. Ateu. Ateu. A própria palavra já remete pra um estereótipo infantil (beirando ao ridículo) de pessoa inteligente, má e desnorteada. Reforçar essa imagem entrando num curso de Filosofia só agrava a situação. Não vou entrar na questão do ateísmo aqui no blog mas é costume associar a fé em deus, duendes ou seja lá o que for com BONDADE, enquanto a descrença no místico é associada à MALDADE. Qualquer pessoa com um pouco de parcimônia, sabe que isso não é verdade. Ao contrário do que supõe o senso comum, não é preciso ter fé para ser virtuoso, bom e amar a vida. É o que eu vi com maior clareza lendo Russel. Não que eu seja atéia, não sou nada, não sei de nada, não tenho nada e nunca serei nada, mas uma coisa eu sei: identificar esse estilo de ateu supracitado. Sem comentários.
And last, but not least: há os que farão Filosofia e escreverão livros entitulados "Como um diploma de Filósofo vai revolucionar a sua vida!" "Seja filósofo, pareça esperto". Olha, só de pensar nisso já tenho calafrios. Talvez seja só uma falsa impressão mas vejo um "quê" de prepotência nesse título de "Filósofo". Ser professora de Filosofia, mestra, doutora - e até onde se permite ir com essas pataquada rotulesca - é uma coisa, mas Filósofa? Peralá, aí já é pegar pesado! Como posso ousar em me colocar no mesmo patamar que Sócrates, Shoupenhaer, Kant, oras, convenhamos: é muita prepotência, não acha?
Bom, escrevi os motivos pelos quais eu não faria o curso de Filosofia para, finalmente, explicar por que eu o faria. Como escrevi lá no início, o pouco de preocupação que eu tinha com a imagem que as pessoas faziam de mim escorreu pelo ralo. Não que eu tivesse muita, mas, vocês sabem, todos nós nos preocupamos com isso, em maior ou menor grau. Viver sozinha e ficar todo esse tempo sem sair foi o que faltava para começar a pensar na vida e, consequentemente, na morte. Aliás, é essa fuga, esse medo de encarar a própria morte que me deixa curiosa e espantada: como o ser humano pode - com o cérebro que tem - passar toda a vida acreditando ser eterno, imaginando santos, Harry Potter, fadas e duendes, se preocupando com roupas e outras coisas fúteis, vivendo uma ilusão imposta já de cedo pela família, sofrendo com bobagens e se entendiando por aí, como?
Com esse pensamento é que me interessei pela Filosofia, não vejo forma melhor de utilizar esse "sopro" de vida que ainda tenho com o conhecimento. Ensinar, ouvir, aprender e ter tempo para a música, os amigos, dormir, ler, escrever e anarquizar o sistema, por exemplo é só o que consigo me ver fazendo daqui pra frente. Deixei de 'ramelar' com essa vida tão misteriosa, tão curta e tão sem sentido.
P.S. Estou sendo irônica com o "anarquizar o sistema", tá?
