quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

So don't fear if you hear, a foreign sound to your ear.

Ah, fim de mais um ano, começo de outro. Fiz em 2007 o que achei que tinha que fazer. Devo ter, sem exageros, passado a maior parte do tempo - em que estive acordada - estudando, estudando e estudando. Mesmo que o resultado da prova seja uma temida reprovação não vejo algo de tão ruim nisso: fiz o que deu pra fazer no pouco tempo que tive para estudar e, acreditem, não é fácil voltar a estudar a vida dos Platelmintos, por exemplo, depois de sete anos sem saber o que é matéria de terceiro colegial. Apesar de querer muito, muitíssimo, entrar para o curso de Filosofia já em 2008, meu ingresso só virou uma questão de tempo.

O que as pessoas não entendem é por que Filosofia. Como assim fazer uma faculdade só pra pensar? Coisa inútil, como é que se ganha dinheiro com isso? Bom, pensar na utilidade da Filosofia com a cabeça imersa nesta praticidade na qual o fim último é "ganhar dinheiro" é coisa difícil de se fazer mesmo. Não recrimino quem pense dessa maneira: a sociedade nos ensina a querer comprar um monte de baboseiras sem utilidade, ser rica, bonita, agradar os pais, enfim, a se preocupar demais com o status. "Ser feliz", proclamam os mais desavisados. Uns compram essa idéia de comercial do banco Itaú sem grandes problemas, outros, como eu, acham essa "felicidade" simplesmente mentirosa. (Não se aflinja, leitor, se você está bem achando que ser rico é a única coisa a se fazer enquanto ser vivo melhor pra você. De verdade.).

É até engraçado. Vejo nos olhos dos meus interlocutores 4 tipos de opiniões possíveis pra resposta da pergunta "O que você vai prestar?". São as seguintes:

1) "Ela vai fazer filosofia porque virou alguma descrente niilista e
mal humorada
";
2) "Virou mod-hippie, panteísta, i'm-the-walrus-psicodélica";
3) "Ih, vai virar freira";
4) "Vai fazer filosofia para parecer inteligente, culta, filósofa,
arrogante"
.


Tsc, tsc.


Confesso que o meu medo é encontrar pessoas neste curso que satisfaça alguma das categorias aí acima. Não consigo suportar a idéia de ter que dividir a classe com alguém que apresente qualquer uma dessas características e explico o porquê: o interesse dessas pessoas pela Filosofia simplesmente não é o interesse certo!

Uma colega de serviço me disse que o amigo do marido fazia Filosofia e completou, "Ele é pastor...". Ó, senhor Jesus! Fiquei aflita a partir daí. Fico pensando: como discutir Nietzsche com um crente, por exemplo. Nada contra a crença em si, mas fico imaginando o quão fechado para idéias extra- religião esse pessoal deve ser. Entrar num curso de Filosofia achando que somente as obras cristãs como as de Santo Agostinho e Tomás de Aquino são válidas é complicado.

E as pessoas que vão fazer Filosofia para "psicodelizar" nas festinhas da USP? Também vai ser difícil de aguentar, mas com esses não me preocupo tanto: diante da dificuldade da prova acredito que os maconheiros acabem sendo barrados já na 1ª fase. Pode ser que entre um ou outro, mas acredito que será um número bem inexpressivo. Bom, longe de mim ser moralista com relação às drogas, aliás, quem me conhece sabe que eu não sou, mas... drogas e pensamento crítico não combinam.

Os que procuram a Filosofia pra manter a pose de malvado e ateu também me incomoda. Ateu. Ateu. Ateu. A própria palavra já remete pra um estereótipo infantil (beirando ao ridículo) de pessoa inteligente, má e desnorteada. Reforçar essa imagem entrando num curso de Filosofia só agrava a situação. Não vou entrar na questão do ateísmo aqui no blog mas é costume associar a fé em deus, duendes ou seja lá o que for com BONDADE, enquanto a descrença no místico é associada à MALDADE. Qualquer pessoa com um pouco de parcimônia, sabe que isso não é verdade. Ao contrário do que supõe o senso comum, não é preciso ter fé para ser virtuoso, bom e amar a vida. É o que eu vi com maior clareza lendo Russel. Não que eu seja atéia, não sou nada, não sei de nada, não tenho nada e nunca serei nada, mas uma coisa eu sei: identificar esse estilo de ateu supracitado. Sem comentários.

And last, but not least: há os que farão Filosofia e escreverão livros entitulados "Como um diploma de Filósofo vai revolucionar a sua vida!" "Seja filósofo, pareça esperto". Olha, só de pensar nisso já tenho calafrios. Talvez seja só uma falsa impressão mas vejo um "quê" de prepotência nesse título de "Filósofo". Ser professora de Filosofia, mestra, doutora - e até onde se permite ir com essas pataquada rotulesca - é uma coisa, mas Filósofa? Peralá, aí já é pegar pesado! Como posso ousar em me colocar no mesmo patamar que Sócrates, Shoupenhaer, Kant, oras, convenhamos: é muita prepotência, não acha?

Bom, escrevi os motivos pelos quais eu não faria o curso de Filosofia para, finalmente, explicar por que eu o faria. Como escrevi lá no início, o pouco de preocupação que eu tinha com a imagem que as pessoas faziam de mim escorreu pelo ralo. Não que eu tivesse muita, mas, vocês sabem, todos nós nos preocupamos com isso, em maior ou menor grau. Viver sozinha e ficar todo esse tempo sem sair foi o que faltava para começar a pensar na vida e, consequentemente, na morte. Aliás, é essa fuga, esse medo de encarar a própria morte que me deixa curiosa e espantada: como o ser humano pode - com o cérebro que tem - passar toda a vida acreditando ser eterno, imaginando santos, Harry Potter, fadas e duendes, se preocupando com roupas e outras coisas fúteis, vivendo uma ilusão imposta já de cedo pela família, sofrendo com bobagens e se entendiando por aí, como?

Com esse pensamento é que me interessei pela Filosofia, não vejo forma melhor de utilizar esse "sopro" de vida que ainda tenho com o conhecimento. Ensinar, ouvir, aprender e ter tempo para a música, os amigos, dormir, ler, escrever e anarquizar o sistema, por exemplo é só o que consigo me ver fazendo daqui pra frente. Deixei de 'ramelar' com essa vida tão misteriosa, tão curta e tão sem sentido.

P.S. Estou sendo irônica com o "anarquizar o sistema", tá?

sábado, 12 de janeiro de 2008

Mônica's 115th Dream

Ok, tô até assustada: acho que andei exagerando nessa "pângua" existencialista que postei no começo desse blog. Estou menos radical (chata, na verdade), mais cética e não menos convicta sobre o caráter contingente do mundo, a religião, a cegueira da sociedade, o mundo como vontade e representação e a pataquada alheia. haha

Já me manquei: não posso querer discutir sobre minhas dúvidas existenciais assim como quem puxa conversa com o vizinho sobre o tempo no elevador, né? Pois, é. É pra isso que serve a parede amiga!

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Notícias do Front

Após longuíssimo período de crise, quase sempre adotando práticas comuns aos que vêem na evasão de si próprio um alívio para o grande vazio que é a (não) existência, é que digo – parodiando uma das cenas finais do filme Laranja Mecânica (Kubrick) – “I’ am finally cured”.

Curada, gente, e de tal maneira que minha vida, assim como a História que tem sua linha cortada em antes de depois do nascimento de Cristo (a.C e d. C), passou a ser dividida em antes e depois das férias do trabalho, em 2007. (a.F e d. F).

Agora vejo com clareza: todas as idéias, todas as verdades que sempre existiram na Monicalândia ficaram lá, ou melhor, aqui, em formato embrionário durante todo esse tempo, sufocadas pelo senso comum, rechaçadas pela opinião alheia, dando espaço a uma conduta displicente, ao conformismo, enfim, à vida no piloto-automático; como bem observado por Spinoza, passei todo esses anos “fugindo do que os homens em geral fogem e buscando o que vulgarmente procuram”.

Quanto tempo perdi vendo tv? Quantas horas do meu precioso tempo de vida desperdicei com o mundo imaginário do orkut? Com filmes? Com os romances que costumava ler? Quantas vezes deixei meus pensamentos se ocuparem com a vida de outras pessoas ou com as “pataquadas” do trabalho? Quanto dinheiro gastei com os fins de semana e com a procura de um mundo que só existiu na minha imaginação? Pois, é...
Me espantei ao perceber que grande parte das ações que norteiam a sociedade fazem parte de um esforço contínuo, ou melhor dizendo, um esforço frenético, desesperado de manter-se "ocupado" e fugir de um tédio que inexiste quando se tem uma vida - e isso só me foi possível enxergar quando, deliberadamente, me afastei de qualquer distração, tendo que encarar a vacuidade de espírito com a qual me permiti andar durante todo esse tempo, não tendo outra opção que não fosse a de procurar entender os motivos que estavam me levando a “viver” de forma tão infeliz.
A conclusão foi a de que, na verdade, eu não vivia: buscava recompensas, prazer nas honrarias das relações sociais, me jogando, sem pensar, nesse mundo de abobrinhas generalizadas e cada vez mais pobre de idéias, direcionando toda minha capacidade intelectual em tarefas fúteis que tentarei explicar em outra ocasião.

Em meio a tudo isso, enfim, nesses meses de reflexão, encontrei uma brecha pra respirar e ganhei uma vida! Vejam bem: uma vida, coisa que, até então eu não tinha; e um espírito verdadeiramente cognitivo, diariamente alimentado pela observação do comportamento alheio, da natureza, dessa fauna humana. Afinal, não é preciso mais que um ou dois neurônios para perceber que não nos resta muito a fazer neste planeta que não seja contemplar o que há ao nosso redor e decifrar o funcionamento deste mundo velho.
As angústias sobre a alma, sobre a humanidade, sobre Deus, aquelas que, até ontem, tinham para mim um valor de "problema-infindável-que carregarei-pro-resto-da-vida" agora não me parecem tão grandes assim. Continuam existindo, mas não importam tanto assim. E ainda digo mais: se não perderam totalmente o seu valor ao menos tiveram-no consideravelmente reduzido.

Nada mais importa. Nada. Nada é problema quando você passa a viver como um ser mortal e um reflexo disso é a minha ausência não só deste blog, mas do convívio até mesmo com os que vejo diariamente (!); só agora percebo que quanto mais tempo tenho pra mim e para minhas idéias, menos importância dou para as falácias que giram ao redor e que nos levam a fazer coisas que não queremos, nos transformam em seres vazios e cada vez mais distantes do que somos na essência.

E falando em falácias... Agora me lembro do motivo de ter vindo pra cá (hehe): vim escrever sobre a problemática do não-viver, de como o homem se torna alheio a sua própria vida, de como suas ações são impulsionadas tão-somente pela opinião do outro; do ser semi-vivo e nada racional.

Será então assunto para um próximo post. Por ora, deixo-lhes apenas esta preciosa frase: “Tudo passa, até a uva passa”.

Pensem nisso.

domingo, 27 de maio de 2007

É noite. Não, é dia.

Nesses últimos dois anos fui invadida por uma necessidade quase inexplicável de mudança. E eu digo “quase” porque, de certa forma, acreditava estar passando por um período no qual a maioria dos jovens recém-formados em jornalimo e à procura de emprego estavam fadados a vivenciar. É verdade que eu poderia simplesmente ter feito uma tatuagem, mudado o guarda- roupa, a cor do cabelo e voltado a viver no piloto-automático. Mas acabei projetando essa sede de mudança numa futura vivência em uma nova cidade. A simples idéia de conhecer novas ruas e de me perder em bairros desconhecidos me alegrava a alma! “Vou pra São Paulo”, foi o que estabeleci como meta.

Pois bem, estou há um ano nesta cidade e ainda procuro a tal mudança que só agora suspeito que seja inalcançável do ponto de vista de "lugar".

Dentre as idéias que me vieram em mente, desde que vim para cá, apenas aquelas relativas a uma possível troca de endereço foram capazes de me levantar do sofá. Disposição para viajar não me falta e não me falta também vontade de estudar para conseguir um emprego mais rentável, afinal é esta a condição fundamental para que eu possa “conhecer o mundo durante as férias”, como recentemente planejado.

No entanto, relendo o blog velho, me vejo buscando algo que transcende um novo lugar, uma nova cultura, um novo rosto. “O que busco de verdade então?”, foi a pergunta que não quis calar nestes últimos meses. E é assim, fingindo ignorar toda minha inconstância de idéias, que me atrevo a responder: eu busco, em novas experiências, uma resposta para minha grandiosa existência. Existência. Existência. Existência. Descobri que minha “necessidade” é pura e simplesmente a dor de existir. A mesma dor que me deu um nó na garganta ao ler Hamlet, a mesma dor que me consome ao olhar para o céu e se sentir pequena, a mesma dor de ter sido lançada à vida sem um manual de instruções. Se Deus existe, pelo menos comigo, ele foi bem cruel.

E agora que a “vontade de mudar de lugar” se revelou “uma busca de resposta para a vida” estou lascada. Mas não se preocupem, eu vou sobreviver.